terça-feira, 26 de junho de 2018

Esse tal de historicamente correto


   Em meios revivalistas e de recriação histórica muito se fala sobre o historicamente correto e acurácia histórica. Mas afinal, o que é esse tal de historicamente correto? Isso é algo realmente importante? A resposta curta é: depende. A resposta longa segue no texto abaixo.

    Quando reproduzimos trajes históricos, em geral a ideia é chegar o mais próximo possível de algo que seria usado na época. É basicamente isso que diferencia um traje histórico de uma fantasia, essa pesquisa e cuidado com os detalhes. Para que um traje seja historicamente correto, ele precisa atender a alguns requisitos.

Aspectos que definem a acuidade histórica

    Quem já viu os meus posts para o Desafio de Costura histórica já reparou que eu costumo dividir a acuidade histórica em 4 campos: aparência, modelagem, técnicas e materiais.

    Aparência: seria o conjunto todo, o resultado final. Olhar para aquela peça e ver que ela realmente parece da época que você está reproduzindo e aparenta ter saído de um museu.

     Modelagem: a altura da cintura, localização das pences, formato da saia... Estudar a modelagem de um período é importante para conseguir atingir a silhueta correta.

     Técnicas: geralmente envolve tipos de costura, pontos, bordados, fechos. Cada época vai ter uma forma de montar de construir uma peça diferente da outra.

    Materiais: eles vão afetar não só o visual final mas também por terem propriedades diferentes acabam impactando o caimento. E apesar de atualmente não termos mais barbatanas feitas com osso de baleia, por exemplo, é conhecendo as características e função dos materiais utilizados que conseguimos pensar em substitutos que façam sentido.

Técnicas vs contexto social 


Dame en Dienstbode, por Veermer (1667)

    A acurácia histórica também precisa ser contextualizada. Exemplificando: ainda que seda roxa seja um tecido historicamente correto na Era Tudor, ele não seria utilizado em um traje em um traje de classe baixa. Na Era Vitoriana, um vestido de uso diurno tem tecidos e cortes diferentes de um vestido de baile.

    Ao pensar em fazer algo que seja o mais aproximado da realidade possível, a pergunta 'a realidade de quem?' precisa ser respondida. E é aí que entram as personas históricas. Pensar em qual integrante da sociedade você vai basear seu estudo e compor seu traje. Classe social, ocupação e ocasião são alguns dos aspectos que influenciam e muito o tipo de roupa que era usado numa mesma época.


Sobre figurinos e liberdade artística

    Figurinos de filmes de época acabam sendo um capítulo a parte porque os trajes que ali estão tem um papel importante que é ajudar a contar a história, a função não é necessariamente dar uma aula de história da moda. Por isso vemos muitas peças estilizadas ou feitas com técnicas modernas, que economizam tempo e dinheiro. 

Moulin Rouge e The Young Victoria, ambos filmes que se passam na era vitoriana mas com propostas de figurino bem diferentes 

    Então muitas vezes um figurino que não é historicamente correto pode ser bem interessante, como é o caso de Moulin Rouge. Ele é um musical que se passa na frança do século XIX, mas temos músicas modernas, e o filme inteiro é 'temperado' com toques contemporâneos em meio ao que seria histórico. Dentro desse contexto, um figurino mais estilizado é válido e coerente.

    Mas quando você representa uma personalidade histórica e quer passar credibilidade ou se propõe a informar, o ideal é que o figurino seja o mais fiel possível à época e os figurinistas costumam seguir essa fórmula em biografias.

Concluindo

    No fim das contas a acurácia histórica se resume a uma escolha, uma que tem a ver com seus objetivos. Ainda que o historicamente correto seja um vestido medieval de lã natural tingido de forma artesanal todo costurado à mão, não é como se houvesse uma Interpol do Historicamente Correto que vai te prender se você utilizar lã de acrílico e fazer as costuras internas à máquina para economizar tempo.

    A minha maior preocupação nos trajes que faço costuma ser a aparência. Eu prezo por algo que pareça ter saído de um museu, o que no fim das contas acaba envolvendo estudar a modelagem para reproduzir uma silhueta, pensar em materiais que sejam equivalentes e por aí. Ou seja, é um trabalho em conjunto. Mas também me importo muito com a praticidade, então se eu puder costurar algo a máquina eu vou fazer isso sem o menor peso na consciência.

    Ainda que a definição de acurácia histórica em trajes não seja um consenso dentro da comunidade recriacionista e muito se discute sobre o fato de ser impossível ter algo 100% historicamente correto, pensar sobre esses aspectos tem a ver com refletir sobre o propósito de um traje e ajudam na hora de definir detalhes e planejar a confecção de forma que ela tenha o melhor resultado possível dentro daquilo que é importante para você.

Referências/ recomendação de leitura: 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Livro: O lar da Srta Peregrine para crianças peculiares

    Voltando com as resenhas de livros, o comentado dessa vez será O lar da Srta Peregrine para crianças peculiares, escrito por Ranson Riggs e lançado em 2011. Talvez a escolha pareça um tanto off-topic para o blog por ser uma fantasia juvenil, mas ele envolve algumas coisas que eu adoro: fotografias antigas e um quê de horror muito interessante.



"Era como se a constância da vida deles ali, os dias sem mudanças, aquele verão perpétuo e imortal, tivesse prendido suas emoções como fizera com seus corpos, selando-os em juventude como Peter Pan e seus Meninos Perdidos." 

     A história é contada a partir do ponto de vista de Jacob Portman, um garoto americano de 16 anos que vem de uma família abastada. Seu avô tinha uma coleção de fotos excêntricas e sempre contava várias histórias sobre crianças com habilidades sobrenaturais que viviam sobre a tutela de uma mulher que podia controlar o tempo e se transformar em ave. Apesar de fantasiosas Jacob sempre acreditou nessas histórias, por mais que isso causasse conflitos com seus pais .

   Até que seu avô é morto de uma forma brutal, e Jacob vê que o culpado foi uma criatura monstruosa (que depois descobrimos ser um etéreo, seres sobrenaturais que foram corrompidos), todos acham que Jacob está louco e ele começa a se consultar com uma psiquiátra, que sugere como forma de tratamento que ele vá até a ilha da qual seu avô falava, para poder confrontar a realidade com a fantasia e começar a aceitar melhor a morte de seu avô. 

     O que acontece quando Jacob chega a essa ilha é justamente o contrário, ele descobre que o Lar da Srta Peregrine é real e passa então a se envolver cada vez mais com seus moradores, o que inclui enfrentar inimigos em comum.

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    Ranson Riggs leva o conceito de livro ilustrado para outro nível. Em O lar da Srta Peregrine para crianças peculiares as imagens são tão importantes quanto o texto. O autor costurou uma história em volta das fotos curiosas que ia encontrando. Boa parte são de sua coleção pessoal e as imagens são autênticas, e saber disso me causou um impacto ainda maior.

    A leitura é bem envolvente, realmente é daqueles livros difíceis de largar. A narrativa muitas vezes pende pro horror, com essa clima de mistério e sobrenatural envolvendo as fotografias e alguns personagens. A obra é considerada como dark fantasy.

Cidade dos Etéreos e Biblioteca de Almas

"Não tem a ver com destino. Acho que existe um equilíbrio no mundo, e as vezes forças que não compreendemos intervêm, botando mais peso no lado certo da balança."

    No segundo livro somos imergidos ainda mais no mundo dos peculiares, e podemos acompanhar também o desenvolvimento de vários personagens. O ritmo é mais rápido pela busca que Jacob precisa fazer junto de seus amigos. 

    Apesar de ter me decepcionado um pouco com o fato de as fotografias no terceiro livro não serem tão protagonistas, ainda assim considero um ótimo livro! Minha única ressalva é o fato de eu ter tido a impressão de que o autor optou por algumas soluções 'fáceis' para que seus personagens conseguissem lidar com os conflitos do clímax, de qualquer maneira, fiquei bem satisfeita com o desfecho.


    O lar da Srta Peregrine para crianças peculiares é uma série que assim que você termina de ler sente saudades dos personagens. Para mim o seu maior triunfo é essa experiência de leitura incrível. É uma coleção bem singular e eu confesso que achei bem marcante. 

     Espero que tenham gostado do post e se interessado pelos livros! 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Muito antes da Vogue: as primeiras publicações de moda

Vogue, 1930s

    Hoje é possível encontrar uma infinidade de revistas dedicadas a falar sobre moda, seguimentadas por estilo, idade, geografia...as opções são inúmeras. Estão disponíveis em bancas de jornais, livrarias e até mesmo na internet. Mas como elas surgiram? Quais foram as primeiras? Como se popularizaram? Nesse artigo trago uma breve história das publicações de moda.

O início das publicações de moda: 


The Ladies Mercury. 1697

    As primeiras revistas de moda apareceram nas décadas de 1770 e 1780. Como a Lady's Magazine, um almanaque de novidades dedicado a damas que apresentava ilustrações de moda a partir de 1770 e a Journal dex Luxus und der Moden, que surgiu na década seguinte. Anterior a isso houveram outras tentativas também no século XVIII: a Courrier  des Nouvellistes (1728) e a Journal du Gôut, em 1768, que não eram periódicos regulares. Em 1785 surge o O Cabinet des Modes, com gravuras em cores e o Journal de la Mode du Goût, que depois passou a se chamar Journal  des Modes Nouvelles Françaises et Anglaises e foi famoso em toda a Europa, publicado até 1793.

    Até então as novidades sobre moda eram apresentadas em revistas de assuntos gerais como a The Ladies Mercury, no século XVII. Ela era como um spin-off do The Athenian Mercury e foi a primeira divulgação direcionada especificamente para mulheres, ficando em circulação apenas durante quatro semanas. Era escrita por um homem e falava sobre casamento, vestimenta entre outros assuntos, tudo em em duas laudas de texto.
Edição de Journal de La Mode du Goût de 1790

    Usar a moda como propaganda política não é uma novidade, e durante a revolução francesa publicações passaram a sugerir uma moda para os revolucionários. O próprio Journal de la Mode du Goût sugeria que as mulheres usassem as cores da bandeira da frança em suas roupas, para demonstrar patriotismo. 

As fashion plates:



Galerie des  Modes et Costumes Français

    O que ficou muito popular em revistas de moda são as fashion plates, ilustrações demonstrando os estilos, detalhes e materiais que estavam em voga. Essas ilustrações eram trocadas entre amigas e levadas em costureiras para serem reproduzidas. Facilitavam o acesso das mulheres de classe média e trabalhadora às novidades em relação à vestimenta, o que fez com que fosse mais rápido acompanhar as mudanças na moda.

    Ao longo do século XVIII vários ilustradores se especializam em registrar a moda, como Gravelot, Moreau le Jeune, Desrais, Le Clerc entre outros. Essas ilustrações eram publicadas em revistas, que até então não contavam com a fotografia. Nessa área, a Galerie des  Modes et Costumes Français era uma referência, com uma série de 500 fashion plates ilustrando a moda entre 1778 e 1787.

O crescimento das revistas:

      A partir de 1815 as publicações de moda se multiplicam e vários outros nomes começam a surgir e consequentemente as mudanças em silhueta passaram a ser cada vez mais frequentes, já que temos aí a consolidação do sistema da moda como conhecemos hoje.

    No século XIX as revistas femininas tiveram um papel importante, visto que auxiliavam na educação das mulheres. Uma revista expressiva nos Estados Unidos era a Godey's Lady's Books, publicada de 1830 a 1878, que era a mais popular na época. Bem conhecida por suas fashion plates coloridas, a revista também apresentava moldes para as mulheres reproduzirem os vestidos em casa.

Englishwoman's Domestic Magazine

    Havia também a Englishwoman's Domestic Magazine, direcionada a mulheres de classe média que faziam a maior parte de seus afazeres domésticos. Com colunas sobre culinária, animais de estimação e, principalmente, moda. A partir de 1860 as edições vinham com ilustrações coloridas e moldes.

    A Ladies Magazine, publicada entre 1828 e 1837 foi a primeira revista a ter uma mulher como editora, a Sarah Josepha Hale, mulher influente na época. Revistas de moda masculinas surgiram somente em 1920, coma  Der Herr, revista alemã. 

Da era vitoriana ao presente, revistas que viajaram no tempo: 

    Das revistas que ainda estão em circulação, podemos citar a Hapers Bazaar. Iniciada em 1867, se descrevia como "Um receptáculo de moda, deleite e instrução", e seguindo o padrão da época também publicava literatura, tendo em suas edições textos de Charles Dickens, Henry James entre outros grandes escritores. 


     Provavelmente a revista de moda mais conhecida no mundo, a Vogue teve sua primeira publicação em 1892 nos Estados Unidos, e durante a I Guerra Mundial passa a ser impressa na Europa, com uma edição inglesa e francesa nos anos seguintes. A ascensão da Vogue durante o século XX daria um post inteiro, mas basta dizer que hoje é uma das revistas que mais influenciam o mercado da moda e apresenta grandes profissionais da área. 

    Publicações de moda da época são uma boa fonte de pesquisa sobre moda e estilo de vida das mulheres. Muitas delas podem ser encontrada em sites com publicações em domínio público, como o Archive.org e o Google Books. Mas é necessário levar em consideração que os modelos apresentados ali são idealizados e não necessariamente representam a realidade, da mesmas forma que as revistas atuais contém propostas de tendência mas não são um retrato fiel do que é usado nas ruas. Ainda assim, são ferramentas bem interessantes para estudar história da moda e sua relação com os costumes da época. 

Bibliografia: 

História da moda no ocidente, François Boucher
Moda: uma filosofia, Lars Svendsen
Journal de la mode et du Gôut (1790)
The American Ladie's Magazine (1828)
A Modista do Desterro: A moda na revolução francesa
Atelier Nostalgia: Inspiration - Journal de la mode et du goût
Hapers Bazaar: History of Hapers Bazaar
The Guardian: Zeal and softness
Vogue: History
Wikipedia: The Ladies Mercury

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Review: Corsets históricos da Josette Blanchard

   Seguindo a proposta de falar sobre marcas alternativas nacionais, hoje o post é sobre a Josette Blanchard. Eu já havia falado sobre um corset histórico da Josette Blanchard aqui no blog, mas hoje falo um pouco mais sobre a marca, além de comentar um dos modelos de corsets históricos do catálogo. 

Josette Blanchard 


    Com quase 10 anos de história, a Josette Blanchard é um ateliê focado em corsets e figurinos, tendo se especializado na costura histórica e réplicas. Atualmente o ateliê está em São Paulo e trabalham principalmente com produtos sob encomenda, que podem também serem feitas pela internet. À frente da marca está Melissa Vargas, que é quem confecciona os produtos, atende clientes e até mesmo fotografa as peças para o catálogo. Ela é formada em História da Moda e também utiliza trajes de épocas em eventos revivalistas. 

Produtos:

Melissa, a dona da marca, usando uma criação própria

    O carro forte da Josette Blanchard são os figurinos, que podem ser históricos, fantasia, cosplay ou até mesmo noivas. O catálogo de corsets é realmente amplo e tem dezenas de modelos, tanto para tight lacing, quanto para compor figurino ou uso fashion. 

Réplica de um figurino de coelhinha da Playboy

    No site existe um catálogo com modelos disponíveis, mas por ser sob encomenda você pode contatar a marca e solicitar orçamento de algo novo. Cada figurino na  Josette Blanchard é único e eu acho essa proposta de exclusividade bem interessante. 

Feedback e review:


    Eu tenho várias peças da marca, meu primeiro corset mesmo encomendei em 2012. Para mim o principal diferencial dela é justamente essa especialização em história da moda, as peças históricas são realmente bem feitas e acuradas e diria que são uma referência na área. A modelagem é um primor e a Melissa é sempre muito atenciosa no atendimento. Josette Blanchard é uma marca cuja evolução ao longo dos anos é notável e estou sempre me surpreendendo com as peças. 


    Minha última foi esse corset vitoriano midbust que é uma réplica de um modelo de 1876. Eu sou apaixonada por corsets vitorianos e esse modelo era um sonho de consumo. E ele é perfeito! A modelagem segue o padrão da época mas de uma forma que se adapte a corpos modernos, por exemplo: ele possui um busk mais maleável para que a barriga tenha essa curva bem comum em corsets da época.
Fotos do processo, que foram postadas no instagram da marca

    Eu queria destacar também o bordado, que também foi feito pela Melissa e consome uma boa parte do tempo de produção desse corset. Definitivamente é uma peça especial e é a que tem a confecção mais longa do atelier.

    Josette Blanchard uma das minhas marcas preferidas no mercado nacional e recomendo a todos que procuram algo único, artesanal e de qualidade, seja para usar no dia a dia ou em ocasiões espciais. 

Recomendação de leitura: 
E essas mulheres que se apertavam em corsets? 
O bordado na era vitoriana 

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Notas sobre construção: fazendo um traje de baile império

    Fiz esse vestido faz muito tempo... em abril de 2017, sendo mais específica. O principal motivo para eu não ter postado antes sobre como fiz ele foi que eu simplesmente me esqueci de ir tirando fotos durante o processo. Era uma peça simples então acabei me empolgando e fui costurando sem parar, rs.

    Ainda sim, senti vontade de registrá-lo da mesma forma que faço com os outros, ainda que esse post não seja tão detalhado como de costume, resolvi falar sobre.

Modelo e inspiração

    Fiz esse vestido para o III Picnic Jane Austen e minha principal inspiração foi um dos figurinos de Becoming Jane. Também dei uma pesquisada em peças originais e acabei me decidindo por um design básico, muito usado durante a década de 1800-10s.

Molde e corte

    O molde eu tracei a partir de métodos modernos (ainda que me inspirando em moldes de vestidos históricos) e é bem simples. Sem recortes no corpete. Com a parte da saia em evasê na frente e franzido atrás. Minha principal referência foi a imagem acima, do Practical Costume


Construção

    Foi um vestido bem rápido de fazer, eu costurei em um dia. A faixa abaixo do busto é reforçada com brim e as costas fechadas com fita de cetim em laços (o que depois substituí por zíper por praticidade). Eu montei primeiro o franzido da frente do corpete com a faixa, então costurei a saia. Segui a mesma ordem nas costas e então costurei frente e costas pra só então costurar as mangas. Detalhes como a faixa abaixo do busto e guipir foram acrescentados depois.


Essa é a única foto que tirei durante o processo, quando eu já estava provando.

Underwear e acessórios


    Como roupa de baixo usei a chemise longa e o short stays que eu já havia feito para outro traje. Não é meu conjunto de traje de baixo histórico mas bonito mas é funcional e proporciona a silhueta correta do período.


    Os acessórios que escolhi eram básicos e simples também, só para compor o visual mesmo. Dei sorte de achar uma sapatilha bem parecida com os sapatos da época, o que é importante quando o vestido não tem cauda e você acaba mostrando os pés. Também usei meu spencer junto, não só pra tirar fotos mas também por causa do clima, que resolveu esfriar ao final do evento.

Resultado

Fotos por Ítalo Vinícius (Pictografia Digital

    Gostei bastante! Gosto de me dedicar a trajes complexos mas também acho agradável fazer algo simples e rápido como esse. A única coisa que me incomodou foram as fitas para fechar o vestido atrás, que apesar de historicamente corretas não achei tão bonito e nada prático, então substituí por zíper. O que gosto nesse vestido é que por ele ser básico eu consigo compor com outras peças e então ter vários visuais diferentes.

    Já tem aqui no blog um ensaio com as fotos da primeira vez que usei esse vestido, clique aqui pra ver. Espero que tenham gostado do post. 

Principais referências:

Jane Austen: Sew a regency gown
Pratical II Costume, Emma Siechart (molde)

sexta-feira, 30 de março de 2018

Desafio de costura histórica: Camisola 1930-1940

 

    O tema de Março do desafio de costura histórica é 'Conforto no lar: faça algo para ser usado em sua casa (histórica)'. Já fazia um tempo que eu admirava camisolas vintage, então aproveitei o tema para fazer uma pra mim e sim, estamos introduzindo uma outra época aqui no blog, rs. Eu também sou bem fã das décadas de 1930-40 e tento colocar elementos da moda desse período no meu dia a dia. Para mim esse desafio foi unir o útil ao agradável. 

Número do desafio: #3 (conforto no lar)
Tecido: cetim
Molde: tracei o meu próprio, baseando-me em exemplos históricos
Ano da peça: 1930-1940
Materiais utilizados: cetim, renda de tule, viés de cetim.
Quão historicamente correto é?: 80%*
Total de horas para finalização: Aprox. 4 horas
Quando utilizou pela primeira vez: Usada apenas pra fotos
Custo total: zero, utilizei materiais que já tinha

*Como eu cálculo a acuidade histórica: 25% aparência, 25% materiais, 25% técnicas, 25% modelagem.


Modelo

    Esse corte de camisola era muito utilizado nas décadas de 30 e 40. Eu buscava por algo com esse recorte no busto e detalhes em renda. Minhas principais referências foram ilustrações em catálogos da época.

Molde e corte

    Já tendo uma referência de como o molde deveria ser, tracei o meu a partir dele, com as minhas medidas. Foi a primeira vez que tracei esse tipo de recorte no busto e é impressionante o quanto ele influencia no caimento da peça. Eu sempre acho cortar cetim complicado pelo tecido ser escorregadio e acabei não fotografando o processo. 

Construção

    Primeiro eu apliquei a renda no busto, depois uni as duas partes do decote frontal, e então a saia. A parte de trás fiz também nessa ordem. Pespontei a costura abaixo do busto para dar acabamento, uni as laterais e as alças em viés foram a última coisa que costurei. 

Resultado 

    Eu amei! Ficou realmente como eu esperava que ficasse e foi uma peça bem rápida de fazer. Fiquei satisfeita com a modelagem e ainda pretendo fazer outras peças nessa mesma modelagem. A minha única ressalva é a renda de tule, eu acho que ela pinica um pouco então numa próxima eu utilizaria a renda de outro material. 

   Não sei se século XX será um assunto abordado muitas vezes aqui no blog, mas gostei de diversificar um pouco, ainda que em um post mais curto. Espero que tenham gostado, vocês se interessam por esse universo vintage e retrô? 

Referências

Molde - https://br.pinterest.com/pin/523684262914718032/ 
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segunda-feira, 26 de março de 2018

Minha evolução na costura histórica. O que mudou em 7 anos?

    Costura, como praticamente toda atividade manual, é algo que se evolui com a prática. Quando falamos em costura histórica falamos na junção de pesquisa e confecção, a produção de um traje depende das duas. Durante uma conversa com a Pauline e Luiza resolvemos fazer um antes e depois, mostrando a evolução nos trajes usados em eventos revivalistas e recriação histórica.

    Mas ao invés de colocar uma foto do meu primeiro e do ultimo traje, resolvi comparar coisas afim, destacando alguns trajes com uma breve reflexão dos pontos que mudei ao longo dos anos. No texto  também linkei alguns posts relacionados aos trajes que menciono, caso queiram ver algum de forma  mais detalhada.

Primeira incursão na moda histórica e revivalismo: 2011 x 2017

Foto à esquerda por Ludie e à direita por Dani Santos

    Meu primeiro evento revivalista foi o II Picnic Vitoriano, em 2011. Eu ainda não tinha como fazer um traje de época então resolvi usar lolita. Misturei elementos da moda com alguns elementos vitorianos: camafeu, luvas, e...bem, acabam por aí os aspectos históricos. O cuidado com cabelo e maquiagem também era praticamente inexistente. Não é um outfit que eu repetiria, apesar de ainda gostar muito de algumas peças dele... Acho que faltou um cuidado maior com detalhes, trazendo mais das referências que eu queria mostrar.

    Na minha segunda tentativa de adaptar moda histórica para lolita, em 2017, acredito que me saí melhor. Ao invés de acrescentar acessórios, dessa vez adaptei elementos do rococó (o vestido aberto na frente, o peitilho, anágua, as mangas 3/4 com babados) à silhueta da moda lolita, com a saia armada e na altura do joelho. O cabelo e maquiagem também foram inspirados no século XVIII, apesar de eu não estar tão preocupada com acuidade histórica nessa parte. Eu adorei o resultado final, amo as fotos desse dia e eu só mudaria o decote do vestido que ficou profundo demais e um tanto desconfortável.

Experiências em moldes históricos e reproduções de vestidos vitorianos: 2012 x 2015

Fotos por Mitsuo Yamamoto e Mau Kisner, respectivamente

    O primeiro traje histórico que fiz foi esse de Rainha Vitória, que usei em 2012. Foi o primeiro documentado aqui no blog e o primeiro que eu pesquisei a fundo pra reproduzir, o que levou meses. Fiquei bem satisfeita com o resultado, e orgulhosa também porque envolveu a aprendizagem de várias técnicas que até então eu não tinha usado. Tive ajuda de colegas mais experientes que me deram dicas, indicações de loja e até mesmo scan de livros de história.

    Depois desse fiz inúmeros trajes vitorianos, mas gostaria de destacar esse que fiz em 2015, por ser de uma época próxima. Aqui eu também repliquei um traje, dessa vez com uma escolha de modelagem mais ousada. Ainda assim, foi uma peça que fiz sem  mock-ups e terminei em poucos dias. Já estava familiarizada com penteados da época então não tive tanta dificuldade nisso também. Escolhi esse traje para mostrar que muitas vezes evolução não necessariamente significa um traje mais suntuoso, mas sim se familiarizar com técnicas e conseguir fazer algo com facilidade.

Improvisos com peças disponíveis vs concluir um traje: 2014 x 2017

Fotos por Mitsuo e Mara Sop, respectivamente

    Esse primeiro é um dos trajes que eu mais detesto, argh! Evento marcado (em 2014) e eu não tive tempo de terminar o vestido, então improvisei com uma chemise longa, um robe (sim, o mesmo do meu traje de chá vitoriano) e uma fita abaixo do busto. Eu também não gostei do meu penteado, era a primeira vez que eu tentava fazer esses cachos usados no império. Como cereja do bolo, o dia estava chuvoso e eu mega desanimada pra fotos.

    O último foi esse, em 2017 também. Eu não tenho muito o que dizer sobre além de que dessa vez eu realmente fiz um traje completo. Roupa de baixo, vestido, e depois ainda coloquei um spencer que eu já tinha em meu acervo por ter feito pra um traje anterior. A vantagem de focar num recorte histórico é que as você pode ir recombinando peças e formar trajes novos sem precisar investir em um kit completo. Eu também aprendi a testar os penteados que quero usar antes do dia do evento, o que ajuda muito no resultado final.

Eu adoro esse traje que fiz em 2016, e representa como ao longo dos anos fui conseguindo fazer trajes cada vez mais realistas, o design também fui eu que criei, e não apenas tentei reproduzir algum figurino ou tela como costumava fazer no início. 

    Para concluir, queria dizer que o aprendizado não é exatamente linear, é feito de auto e baixos e mesmo que você domine alguma área ou técnica, aprender algo novo sempre envolverá erros. Aquela velha máxima de que a 'a prática leva à perfeição' é bem real e a parte boa é que quanto mais você praticar, melhor vai ficar em algo. Gostei de ir separando exemplos e destacar alguns trajes que mostrassem em imagens o que quero dizer.

    Espero que eu tenha conseguido passar essa mensagem e adoraria que esse post inspirasse os que gostariam de iniciar nesse campo mas estão na dúvida se vão conseguir atingir expectativas logo de primeira. Adianto que provavelmente não, mas com certeza é uma jornada divertida.  Nesses 7 anos foquei muito em século XVIII e XIX até me sentir segura reproduzindo essa época, mas agora já me sinto confortável pra explorar outras épocas, silhuetas e técnicas. De uma certa forma, costura histórica é uma forma de explorar o passado, traduzir pesquisas em objetos tangíveis. O meu lado nerd também gosta de considerar uma forma de viajar no tempo, haha.