sexta-feira, 30 de março de 2018

Desafio de costura histórica: Camisola 1930-1940

 

    O tema de Março do desafio de costura histórica é 'Conforto no lar: faça algo para ser usado em sua casa (histórica)'. Já fazia um tempo que eu admirava camisolas vintage, então aproveitei o tema para fazer uma pra mim e sim, estamos introduzindo uma outra época aqui no blog, rs. Eu também sou bem fã das décadas de 1930-40 e tento colocar elementos da moda desse período no meu dia a dia. Para mim esse desafio foi unir o útil ao agradável. 

Número do desafio: #3 (conforto no lar)
Tecido: cetim
Molde: tracei o meu próprio, baseando-me em exemplos históricos
Ano da peça: 1930-1940
Materiais utilizados: cetim, renda de tule, viés de cetim.
Quão historicamente correto é?: 80%*
Total de horas para finalização: Aprox. 4 horas
Quando utilizou pela primeira vez: Usada apenas pra fotos
Custo total: zero, utilizei materiais que já tinha

*Como eu cálculo a acuidade histórica: 25% aparência, 25% materiais, 25% técnicas, 25% modelagem.


Modelo

    Esse corte de camisola era muito utilizado nas décadas de 30 e 40. Eu buscava por algo com esse recorte no busto e detalhes em renda. Minhas principais referências foram ilustrações em catálogos da época.

Molde e corte

    Já tendo uma referência de como o molde deveria ser, tracei o meu a partir dele, com as minhas medidas. Foi a primeira vez que tracei esse tipo de recorte no busto e é impressionante o quanto ele influencia no caimento da peça. Eu sempre acho cortar cetim complicado pelo tecido ser escorregadio e acabei não fotografando o processo. 

Construção

    Primeiro eu apliquei a renda no busto, depois uni as duas partes do decote frontal, e então a saia. A parte de trás fiz também nessa ordem. Pespontei a costura abaixo do busto para dar acabamento, uni as laterais e as alças em viés foram a última coisa que costurei. 

Resultado 

    Eu amei! Ficou realmente como eu esperava que ficasse e foi uma peça bem rápida de fazer. Fiquei satisfeita com a modelagem e ainda pretendo fazer outras peças nessa mesma modelagem. A minha única ressalva é a renda de tule, eu acho que ela pinica um pouco então numa próxima eu utilizaria a renda de outro material. 

   Não sei se século XX será um assunto abordado muitas vezes aqui no blog, mas gostei de diversificar um pouco, ainda que em um post mais curto. Espero que tenham gostado, vocês se interessam por esse universo vintage e retrô? 

Referências

Molde - https://br.pinterest.com/pin/523684262914718032/ 
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segunda-feira, 26 de março de 2018

Minha evolução na costura histórica. O que mudou em 7 anos?

    Costura, como praticamente toda atividade manual, é algo que se evolui com a prática. Quando falamos em costura histórica falamos na junção de pesquisa e confecção, a produção de um traje depende das duas. Durante uma conversa com a Pauline e Luiza resolvemos fazer um antes e depois, mostrando a evolução nos trajes usados em eventos revivalistas e recriação histórica.

    Mas ao invés de colocar uma foto do meu primeiro e do ultimo traje, resolvi comparar coisas afim, destacando alguns trajes com uma breve reflexão dos pontos que mudei ao longo dos anos. No texto  também linkei alguns posts relacionados aos trajes que menciono, caso queiram ver algum de forma  mais detalhada.

Primeira incursão na moda histórica e revivalismo: 2011 x 2017

Foto à esquerda por Ludie e à direita por Dani Santos

    Meu primeiro evento revivalista foi o II Picnic Vitoriano, em 2011. Eu ainda não tinha como fazer um traje de época então resolvi usar lolita. Misturei elementos da moda com alguns elementos vitorianos: camafeu, luvas, e...bem, acabam por aí os aspectos históricos. O cuidado com cabelo e maquiagem também era praticamente inexistente. Não é um outfit que eu repetiria, apesar de ainda gostar muito de algumas peças dele... Acho que faltou um cuidado maior com detalhes, trazendo mais das referências que eu queria mostrar.

    Na minha segunda tentativa de adaptar moda histórica para lolita, em 2017, acredito que me saí melhor. Ao invés de acrescentar acessórios, dessa vez adaptei elementos do rococó (o vestido aberto na frente, o peitilho, anágua, as mangas 3/4 com babados) à silhueta da moda lolita, com a saia armada e na altura do joelho. O cabelo e maquiagem também foram inspirados no século XVIII, apesar de eu não estar tão preocupada com acuidade histórica nessa parte. Eu adorei o resultado final, amo as fotos desse dia e eu só mudaria o decote do vestido que ficou profundo demais e um tanto desconfortável.

Experiências em moldes históricos e reproduções de vestidos vitorianos: 2012 x 2015

Fotos por Mitsuo Yamamoto e Mau Kisner, respectivamente

    O primeiro traje histórico que fiz foi esse de Rainha Vitória, que usei em 2012. Foi o primeiro documentado aqui no blog e o primeiro que eu pesquisei a fundo pra reproduzir, o que levou meses. Fiquei bem satisfeita com o resultado, e orgulhosa também porque envolveu a aprendizagem de várias técnicas que até então eu não tinha usado. Tive ajuda de colegas mais experientes que me deram dicas, indicações de loja e até mesmo scan de livros de história.

    Depois desse fiz inúmeros trajes vitorianos, mas gostaria de destacar esse que fiz em 2015, por ser de uma época próxima. Aqui eu também repliquei um traje, dessa vez com uma escolha de modelagem mais ousada. Ainda assim, foi uma peça que fiz sem  mock-ups e terminei em poucos dias. Já estava familiarizada com penteados da época então não tive tanta dificuldade nisso também. Escolhi esse traje para mostrar que muitas vezes evolução não necessariamente significa um traje mais suntuoso, mas sim se familiarizar com técnicas e conseguir fazer algo com facilidade.

Improvisos com peças disponíveis vs concluir um traje: 2014 x 2017

Fotos por Mitsuo e Mara Sop, respectivamente

    Esse primeiro é um dos trajes que eu mais detesto, argh! Evento marcado (em 2014) e eu não tive tempo de terminar o vestido, então improvisei com uma chemise longa, um robe (sim, o mesmo do meu traje de chá vitoriano) e uma fita abaixo do busto. Eu também não gostei do meu penteado, era a primeira vez que eu tentava fazer esses cachos usados no império. Como cereja do bolo, o dia estava chuvoso e eu mega desanimada pra fotos.

    O último foi esse, em 2017 também. Eu não tenho muito o que dizer sobre além de que dessa vez eu realmente fiz um traje completo. Roupa de baixo, vestido, e depois ainda coloquei um spencer que eu já tinha em meu acervo por ter feito pra um traje anterior. A vantagem de focar num recorte histórico é que as você pode ir recombinando peças e formar trajes novos sem precisar investir em um kit completo. Eu também aprendi a testar os penteados que quero usar antes do dia do evento, o que ajuda muito no resultado final.

Eu adoro esse traje que fiz em 2016, e representa como ao longo dos anos fui conseguindo fazer trajes cada vez mais realistas, o design também fui eu que criei, e não apenas tentei reproduzir algum figurino ou tela como costumava fazer no início. 

    Para concluir, queria dizer que o aprendizado não é exatamente linear, é feito de auto e baixos e mesmo que você domine alguma área ou técnica, aprender algo novo sempre envolverá erros. Aquela velha máxima de que a 'a prática leva à perfeição' é bem real e a parte boa é que quanto mais você praticar, melhor vai ficar em algo. Gostei de ir separando exemplos e destacar alguns trajes que mostrassem em imagens o que quero dizer.

    Espero que eu tenha conseguido passar essa mensagem e adoraria que esse post inspirasse os que gostariam de iniciar nesse campo mas estão na dúvida se vão conseguir atingir expectativas logo de primeira. Adianto que provavelmente não, mas com certeza é uma jornada divertida.  Nesses 7 anos foquei muito em século XVIII e XIX até me sentir segura reproduzindo essa época, mas agora já me sinto confortável pra explorar outras épocas, silhuetas e técnicas. De uma certa forma, costura histórica é uma forma de explorar o passado, traduzir pesquisas em objetos tangíveis. O meu lado nerd também gosta de considerar uma forma de viajar no tempo, haha. 

segunda-feira, 19 de março de 2018

O bordado na era vitoriana

O quanto de história e sociedade podemos contar a partir de uma peça de roupa? E um detalhe? Eu acredito que muito, afinal a moda é um reflexo da sociedade, suas normas, tecnologias, contexto histórico. Hoje falo sobre bordado, e principalmente o papel dele no século XIX.

A moda do século XIX:

Vestido de corte português, 1845


Resumindo a moda vitoriana feminina em apenas algumas linhas, podemos dizer que ela se baseava basicamente em camadas, silhuetas, ornamentos e extravagância. Temos saias armadas, babados, peças estruturas como corsets, mangas bufantes... Era uma moda num geral extremamente detalhada, onde estar o mais 'enfeitado' possível era o ideal. Sendo assim importância do bordado na moda era grande, já que podia tornar peças aparentemente básicas mais interessantes visualmente.

Até o início do século todos os itens de vestuário eram feitos à mão. A invenção da máquina de costura algumas décadas depois agilizou a produção de peças básicas e de uso cotidiano, o que não impediu que peças mais detalhadas continuassem em voga. A busca por peças ornamentadas assim seguiu por exemplo até a década de 1880, onde bordado decorativo em peças de seda era popular.


Bolsa feita em Varanasi, em 1862

Não só pra decoração de roupas, o bordado também era usado em itens para decoração como cortinas, almofadas, biombos etc.


Sua difusão:


Página de um manual de trabalhos manuais de 1887

Modelos e moldes de bordado eram divulgados em revistas como a Peterson’s Magazine e a Godey’s. Essas revistas eram dedicadas ao público feminino e continham receitas, novidades sobre moda, peças de literatura e afins. Revistas assim eram muito importantes e basicamente continham tudo o que uma mulher bem informada deveria saber.

Era comum também os ‘samplers’, uma espécie de catálogo de tipos de pontos e alguns desenhos. Durante a era vitoriana os trabalhos manuais eram divididos em duas categorias: plain work, que incluía remendar roupas ou fazer artigos simples, e o fancy work, que se tratava de peças em tricô, bordados e outros itens mais decorativos.


"Um bordado simples ou sofisticado costuma proporcionar uma parte da recreação noturna para as mulheres da casa".
Beeton's Book of Household Management, 1861

Enquanto o plain work ficava mais para mulheres de classes mais baixas (muitas vezes enquanto trabalhavam em outras casas), as mulheres de classe média e alta não deixavam de enfeitar suas roupas com bordados, para demonstrar que eram habilidosas.

Trabalhos manuais eram ensinados às meninas em casa e na escola, inclusive escolas profissionais, como a The School of Art Needlework, fundada em 1872, que foi uma escola completamente dedicada a ensinar bordado.

Segundo o livro belding Self instructor, apesar de ter um professor seja a melhor forma de aprender, bordar é algo perfeitamente possível de se aprender com livros também. Para os iniciantes, era indicado que fizessem aventais, por ser uma peça simples e que não requer muito material.


Seu papel social:


“Trabalhos manuais ensinavam humildade, economia, caridade, e indústria, qualidades importantes para uma civilização avançada, de acordo com o pensamento vitoriano”
Victorian Needlework

Era importante para uma mulher de boa família saber realizar alguns trabalhos manuais, e provavelmente o bordado estava entre um dos mais praticados e valorizados. Era uma atividade considerada básica para qualquer mulher, que aprendiam a técnica desde criança. Além disso, era um detalhe muito utilizado em peças femininas e masculinas da época.


Portraits in the Countryside por Gustave Caillebotte, 1876.

Durante o século XIX boa parte das mulheres não trabalhava, sendo assim passavam muito tempo em casa e esse tempo precisava ser preenchido de alguma forma. O bordado mantinha as mulheres ocupadas e também era considerado uma atividade de lazer para se fazer junto de visitas, principalmente amigas íntimas.

Com uma grande tradição histórica, o bordado no século XIX já era considerado uma forma de arte, com desenhos elaborados seja em itens de decoração ou vestuário. Era também uma forma de as mulheres se expressarem, numa época em que não tinham tanto espaço para isso.

Podemos ver como mesmo um detalhe de uma roupa revela peculiaridades sobre história da moda, tecnologia têxtil, contexto histórico, padrões de comportamento... O quê e como uma mulher bordava podia indicar a classe social dela e seu papel na sociedade. Mesmo uma atividade muitas vezes tida como um passatempo movimentava o mercado e delimitava expectativas em relação a papeis de gênero.

Referências:

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Desafio de costura histórica: Chemise vitoriana bordada

 

    Esse ano participarei novamente do Historical Sew Monthly (que traduzi como Desafio de costura história pra publicar aqui), do The Dreamstress. O tema de Fevereiro é 'Por baixo: faça algo que vá embaixo de outras camadas'. Eu adoro roupas de baixo históricas e resolvi fazer uma chemise nova, juntando a vontade de fazer outra peça bordada. 

Número do desafio: #2 (por baixo)
Tecido: percal
Molde: tracei o meu próprio, baseando-me em moldes históricos.
Ano da peça: 1860-80s
Materiais utilizados: percal, bordado inglês, linhas para o bordado.
Quão historicamente correto é?: 75%*
Total de horas para finalização: Aprox. 7 horas
Quando utilizou pela primeira vez: Usada apenas pra fotos
Custo total: R$20

*Como eu cálculo a acuidade histórica: 25% aparência, 25% materiais, 25% técnicas, 25% modelagem.

Modelo 


    Desenhei meu modelo acrescentando detalhes de peças de museus que eu achei interessante. Meu foco eram chemises bordadas e fui procurando alguns exemplos de peças que tinham decotes assim. No fim fiz algo que poderia ser usado em 1860 até 1880. 



Uma curiosidade: usei percal (um tecido de lençol) para fazer minha chemise. Na era comum que mulheres reaproveitassem tecidos de lençol para fazer peças de baixo. 

Molde e corte



    Tracei o meu molde do zero, mas tendo como referência alguns exemplos que encontrei em livros da época. Uma peça com poucos recortes, deixando o ponto de interesse no bordado e mangas franzidas.

Bordado



     Tive uma certa dificuldade para encontrar algum desenho que fosse razoavelmente simples para uma iniciante na área, e a solução que encontrei foi adaptar um que vi numa amostra de pontos. Utilizei o ponto de contorno, cheio e haste, sendo que o último eu ainda não sabia fazer. 

Construção



    A costura foi razoavelmente rápida. A pala do decote da frente e costas é forrada e foram as partes que montei primeiro, para então costurar a parte de baixo da chemise com os franzidos, unir ombros, costurar mangas e fechar as laterais. Acabei abrindo mão dos botões na parte de trás à medida que percebi que conseguia colocar e tirar a peça com facilidade mesmo sem esse detalhe 

Resultado 


    Eu não diria que fiquei muito satisfeita, rs. Em relação ao bordado, foi um dos primeiros que fiz e em um ponto que eu ainda estava aprendendo, então não esperava que ficasse perfeito logo de cara. Mas acabei errando na modelagem: decote largo demais e mangas muito justas,  que deixou a peça um tanto desconfortável. Também gostaria de ter deixado mais tecido para franzir a parte da frente. Para fotos esses detalhes não são tão incômodos, mas eu definitivamente preciso consertá-los se for usar essa chemise junto de algum traje. Não cheguei a detestar completamente, mas está longe de ser uma das minhas peças preferidas.

Referências

Estão ao final do post, abaixo da versão em inglês

English version 

The Challenge: #2: Under
Fabric: cotton
Pattern: drafted by myself
Year: 1860-80s
Notions: cotton fabric, lace, embroidery thread
How historically accurate is it? around 75%. Most of the notions and techniques are historically accurate
Hours to complete: 7 hours, in a few days
First worn: Still to be worn
Total cost: circa $7


    I decided to pick some details that I found interesting in museum pieces from 1860s to 1880s. I wanted the embroidery, the puffed sleeves...but the overall looking was quite plain, I think. 




   I drafted the pattern myself, basead on historical ones.


   I'm still learning this kind of embroidery, so my main goal was to find a pattern that was simple enough for me to do but still pretty and historically accurate. The one I used was basead on an embroidery sample from a magazine. 


    The construction wasn't exactly challenging, since I've already made something similar in the past. There's a gattered panel at the front and back, which I did first, and then sewed the sleeves on and finished the piece closing the sides. 

Outcome and fitting


    I'm quite desapointed with the outcome, since I didn't like the fitting. The sleeves were too tight, and the neckline too large. That could be easily avoided if I had made a mockup, but I didn't do. anyway it kinda works for photos, so it's not a complete failure, haha. I'm proud of one of my firsts embroideries, if it didn't ended up perfect. 

Referências/Sources

100 pontos de bordado, autor desconhecido 
The history of underclothes, C. Willett Cunnington, PhiIlis Cunnington
Victorian embroidery and crafts - The History Sampler 
Vintage Connection - Chemise pattern 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Ensaio fotográfico : Chá e passeio vitoriano no Castelo dos Plátanos

    Leslie é uma amiga querida que tem uma casa linda (chamada de Castelo dos Plátanos) em Ibiúna, com uma decoração incrível, bem revivalista. Fomos fazer um ensaio lá com a Rose Steinmetz, foi um dia super divertido! No fim todas fotografamos e fomos fotografadas. Compartilho agora algumas das fotos com vocês. 

    Eu usei dois trajes: O meu traje de chá 1890s, e o traje de passeio 1890's. Já escrevi sobre ambos aqui no blog, os dois foram desenhados e confeccionados por mim. O traje tudor da Leslie foi feito pela Josette Blandchard


"Wasting in my lonely tower. Waiting by an open door"
(Fera em A Bela e a Fera -2017)

 Foto por Leslie 



"Seduce me. Write letters to me. And poems, I love poems. Ravish me with your words. Seduce me."
(Anne Boleyn)





"I believe in curses. I believe in demons. I believe in monsters. Do you? "
(Vanessa Ives, de Penny Dreadful)



"Quoth the Raven “Nevermore.”
(Edgar Allan Poe em The Raven)



Um pouco do making-of: 




    Bem, é isso! Gostei de várias fotos desse dia mas resolvi dar uma selecionada e postar minhas favoritas pra não ficar muito extenso. Espero que tenham gostado! Não vejo a hora de ter a oportunidade de fazer mais ensaios desse tipo. 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Marcas brasileiras de lingerie artesanal: Satinè e Description

    Eu tenho um grande apreço por marcas artesanais, principalmente no que diz respeito a moda. Adoro ter uma peça feita especialmente pra mim, exclusiva ou sob medida. No mercado nacional temos pessoas talentosíssimas e marcas incríveis, e decidi compartilhar algumas que gosto muito, com um breve review sobre os produtos. Hoje, vou falar sobre duas marcas de lingerie artesanal: Satinè e Description. A intenção não é fazer uma comparação entre as duas, mas sim apresentar duas marcas que experimentei e gostei. Bem, começando: 

Satiné
    Satiné é um ateliê que trabalha com lingeries feitas sob encomendas e que podem ser personalizadas. A marca foi criada em 2011 e está situada em São Paulo. 

    À frente da marca está Marcela Marques, que cuida tanto da confecção quanto do atendimento.

Produtos:

A maravilhosa da Sarah fotografada pela Carolina Sakuma

    O catálogo é divido em duas partes: modelos disponíveis e rendas disponíveis. As peças são feitas sob medida e os álbuns são atualizados de forma constante. Além disso, existe a opção de pedir um modelo novo, entrando em contato com a página.

Vaniis Lima, foto por Cris Santoro 

    Por ter essa combinação de materiais e modelos, cada peça acaba sendo única, e a marca preza pelo aspecto artesanal de cada uma delas.

Renata Poppe usando uma camisola da marca

    Pra mim o grande destaque da marca são reproduções de modelos vintages, que eu particularmente acho um charme. Mas o catálogo é bem variado, com peças mais românticas e delicadas até outras mais ousadas e sensuais. Também existem algumas peças de roupa que são produzidas pela marca.


Feedback e review:

    Da Satiné eu comprei uma das peças que estavam à pronta entrega (por vezes a marca faz uma venda de peças do catálogo). Sobre o envio, apesar de bem embalada, senti falta de uma embalagem de plástico pra proteger a peça, caso o pacote molhasse. Mas sobre a peça em si: ela é ainda mais bonita pessoalmente e eu fiquei completamente surpresa e encantada com o fato dela vir com uma essência, achei algo bem especial. 

Description 


Nanny Xavier, fotografada por Bárbara Tagliati

    A Description é uma marca criada em 2017 mas não se engane pelo pouco tempo, ela já tem muita história e produtos interessantes! O foco são lingeries sob medida, prezando pelo conforto da cliente. As peças são feitas por encomenda a partir das coleções que são lançadas pela Description, mas também é possível entrar em contato com a página e encomendar peças exclusivas.

"Lingerie é a primeira peça que vai em contato com a sua pele então é importante que ela esteja perfeita em você, que ela esteja linda"

Por trás da marca está a Bárbara Tagliati, que é quem atende as clientes, desenvolve e fotografa as coleções, costura e até mesmo coloca nos correios as encomendas. Bárbara também trabalha com fotografia, com foco em ensaios conceituais.

Produtos:

Larissa na coleção Horror's Divas

Diferente do que vemos no fastfashion, com coleções de produtos com uma grande rotatividade, temos aqui coleções temáticas e com um conceito bem definido.

Da primeira coleção da marca, foto também pela Bárbara

    No catálogo das marcas vocês verão muitas rendas, transparências, e referências retrôs e dark. Os materiais são de qualidade (com o uso de veludo e rendas importadas, por exemplo) e modelos bem pensados e que fogem do comum.


    Eu recomendo super acompanhar também o stories da Description, lá a Bárbara mantém as clientes atualizadas não só sobre as produção das peças mas também outras questões relacionadas a lingerie, body positive, pesquisas de opinião...eu particularmente considero bem informativo.

Feedback e Review:

    Da Description eu encomendei um conjunto de calcinha e sutiã. Em primeiro lugar eu destacaria o atendimento excelente, a Bárbara é super atenciosa e disposta a tirar dúvidas. Não havia ainda na página um sutiã combinando com a calcinha que escolhi mas mandando uma mensagem ela me mostrou opções do que poderia ser feito. A peça veio super bem costurada e bem embalada. A modelagem me serviu perfeitamente, o que torna a peça incrivelmente confortável. A questão do conforto não é só propaganda, rs. Eu só sou meio ansiosa e senti falta de ser atualizada em relação a prazos e andamento da confecção de uma forma mais pessoal, mas além do prazo dado no email a Bárbara acaba sempre postando avisos sobre como andam os prazos no stories da marca.

    Essas são as marcas que apresento hoje! Espero que tenham gostado desse formato, apresentando mais a marcas ao fazer um review. A ideia é trazer mais algumas que gosto e acho que tem uma proposta bacana. 

sábado, 20 de janeiro de 2018

Moda: uma filosofia. Notas sobre história, identidade e consumo.

    Unir moda e filosofia parece estranho num primeiro momento, mas afinal porque não? Moda é um campo interessantíssimo e seu estudo pode fazer com a gente reflita sobre diversos assuntos, mesmo que a princípio eles pareçam distantes. Sendo assim, compartilho aqui algumas anotações e pontos importantes de Moda: uma filosofia, escrito por Lars Svendsen.


"Uma compreensão da moda deveria contribuir, portanto, para uma compreensão de nós mesmos e da nossa maneira de agir." p.7

    O estudo da moda por si só não é suficiente para entender o mundo, claro. Ainda assim, esse é um assunto que muitas vezes deixado de lado por estudiosos por ser considerado algo fútil, relacionado apenas a um consumismo vazio. 

    Mas apesar disso, as roupas são uma parte vital da construção social do eu, à medida que a identidade também é algo que você escolhe como consumidor, e seu estudo pode contribuir muito na nossa compreensão de como a sociedade funciona. 

Afinal o que é moda?

    Antes do renascimento, o vestuário não mudava com muita ao longo dos anos, ricos e pobres usavam roupas semelhantes e a diferenciação ocorria mais por meio dos ornamentos. Então o que temos é o que teóricos chamam de indumentária. É a partir do renascimento, com o desenvolvimento do comércio que detalhes como decotes, tecidos e e ornamentos começam a mudar com frequência e sem razão aparente. A silhueta não mais acompanhava o formato do corpo e a partir daí que surge o que hoje chamamos de moda. 

 "A moda só se configura quando a mudança é buscada por si mesma, e ocorre de maneira relativamente frequente." p.24 

Sobre identidade:  

    Existe um vínculo muito forte entre moda e identidade, elas fazem parte da construção do 'eu'. Nossas roupas reescrevem nosso corpo e grande parte nossa percepção sobre uma pessoa depende do que a está cobrindo.

    Moda não se aplica apenas às roupas, ela é um mecanismo social aplicado a diversas áreas, sendo que usamos moda como sinônimo daquilo que está sendo amplamente usado e, principalmente, daquilo que é passageiro. 

    "A moda é irracional no sentido de que busca a mudança pela mudança, não para 'aperfeiçoar' o objeto, tornando-o, por exemplo, mais funcional." p.30 Estas muitas vezes são superficiais como o número de botões em um paletó, comprimentos de saia, uma cor... é o apelo da mudança pela mudança. Certamente existem roupas que possuem significado para grupos específicos onde os membros são capazes de identificar os códigos, mas essa não é a regra. Também podemos afirmar que nossas escolhas em consumo também constituem parte da nossa identidade. 

Relação entre identidade e consumo:

"O capitalismo só pode funcionar enquanto o consumidor continuar comprando novos produtos, e o consumidor romântico depende de um influxo constante desses novos produtos porque nenhum deles satisfaz o seu desejo." p.131 

    É praticamente impossível medir a quantidade de mercadorias em circulação e o quanto o consumo está presente em nossa vida. Estamos a todo tempo consumindo serviços e mercadorias para satisfazer nossos desejos e necessidades. Moda é uma área que está diretamente ligada ao consumo , mas para que possamos consumir uma peça de roupa existe antes uma cadeia extensa, que engloba desde a plantação de fibras, indústria química e têxtil, confecção, e estratégias de marketing e publicidade para vendê-la. E poucas áreas focam tanto em encantar o cliente e estimular o consumo quanto moda.

    No entanto, o consumo também está ligado à expressão da individualidade. Não é como se a indústria da moda ditasse de forma universal o que será consumido e usado, os consumidores finais aprovam e desaprovam propostas e compram o que lhes agrada. "Nunca foi verdade que os consumidores simplesmente se permitem ser comandados pela indústria da moda" p.133. Mesmo aqueles que escolhem deliberadamente usar coisas tidas como 'fora de moda' estão sob sua influência, pelo simples fato de nega-las. 

    Acredito ser inegável não apenas a influência da moda em nossas vidas, mas como sua relação com o consumo constitui uma parcela expressiva do mercado e economia. Algo tão presente na nossa vida e cotidiano é digno de atenção, não? Pensando nisso resolvi trazer pro blog textos que tratem a moda não apenas de um ponto de vista histórico, como de costume, mas falando sobre aspectos variados que considero interessantes.

    Espero que tenha sido interessante para vocês também. Apenas pontuei algumas das coisas ditas por Lars, mas o livro inteiro é interessantíssimo e super recomendo a leitura. 

Referências:

SVENDSEN, Lars. Moda: uma filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010