sábado, 1 de julho de 2017

E essas mulheres que se apertavam em corsets?

  O corset (ou espartilho, em português) é sem dúvida uma das peças mais controversas da história da moda, e vários aspectos relacionados a ele nos causam curiosidade. Vilão ou aliado? Um sacrifício feito em nome da beleza? Como separar o senso comum de fatos? Nesse artigo eu apresento alguns aspectos e curiosidades acerca do corset e como eles eram usados na época. 

Polaire em 1890

O que é corset? Como são feitos? O que comem?

Corsets são peças divididas em painéis que são estruturados por barbatanas e várias camadas de tecido, com o ajuste feito por meio da uma amarração nas costas. O mais comum é que tenham também uma abertura frontal e sejam feitos sob medida. Peças semelhantes existem desde o século XVI e o corset como conhecemos hoje surgiu no século XIX, durante a Era Vitoriana (1837-1901). Apesar de espartilho ser a tradução correta de corset, aqui no Brasil virou sinônimo de um outro tipo de lingerie, geralmente em malha e combinada com cinta-liga.

Corsets de 1860, 1870s e 1890, respectivamente

A principal função do corset era o suporte do tronco e seios, além de delinear a silhueta para que o vestido assente melhor no corpo. Era uma roupa de baixo básica e usada por mulheres de praticamente todas as classes sociais, com variações na sua confecção, qualidade de materiais e a frequência em que essa peça era usada e substituída. Apesar de a intenção inicialmente não ser afinar a cintura, isso acontecia por ser uma peça bem ajustada e com o seu uso a longo prazo (versões mais leves dos corsets eram usados desde a infância pelas mulheres), causando assim uma diminuição progressiva de medidas.

O papel social do corset:

“Eles proporcionavam moda, naturalmente, mas para a mente vitoriana eles também proporcionam auto-respeito, sedução, conformidade social e uma série de benefícios à saúde”
Ruth Goodman. How to be a victorian, p.64

Depois de séculos de peças justas e estruturadas no tronco acreditava-se que os órgãos internos das mulheres precisavam de suporte. Parte disso devia-se ao fato de muitas mulheres perderem o tônus muscular por usarem corset desde cedo. Usar um corset também facilitava a manter uma boa postura e manter o corpo aquecido.

Sendo uma peça tão próxima ao corpo o corset definitivamente também estava associado ao pudor. Uma mulher que não estivesse usando um não era vista como uma mulher respeitável, por estar praticamente nua. O corset, assim como outras peças de moda, pode adquirir um outro significado com o tempo como conotação sexual ou fetichismo, por exemplo. E é por isso que vemos relatos de homens admirando alguma cintura minúscula, ou uma ou outra peça com redução extrema. Fazem parte da fantasia que permeava algumas mentes na época.

Corset: um instrumento de tortura que oprimia mulheres?

...E o vento levou, filme de 1939

Desde ‘...E o Vento Levou’ vemos em filmes mulheres sendo apertadas em seus espartilhos enquanto seguram em algo e então temos a impressão de que elas estão sendo torturadas por suas criadas ou mães. Mas isso está longe de ser verdade. Elas não eram obrigadas a usar por horas a fio uma peça que restringe o movimento afim de mantê-las quietas e em casa.

Para as mulheres de uma classe social alta o corset certamente era feito sob medida, permitindo que a respiração ocorra tranquilamente já que a redução de medidas (quando existente) ocorre apenas na região da cintura e não costelas e pulmões. Aliás é preciso levar em consideração que como uma peça de uso diário, o corset era usado em diversas atividades cotidianas, principalmente pelas mulheres de classe baixa que trabalhavam. O que não seria possível se as mulheres mal conseguissem respirar por conta de um corset extremamente apertado, não?

Os corsets não eram todos iguais, haviam ainda diversos tipos de corsets para atender as necessidades da mulher. Alguns exclusivamente desenvolvidos para praticar esportes, nadar, corrigir problemas na coluna, gravidez etc. E, claro, corsets mais enfeitados ou rígidos para serem utilizados em festas e bailes.

Charge e ilustrações sobre o tight lacing, publicadas em jornais do século XIX

Notícias e charges sensacionalistas condenando o uso extremo do corset do existiam desde a era vitoriana. E, como é comum nesse tipo de publicação, costumam exagerar para causar choque. E então aparecem ilustrações sobre deslocamento de órgãos, notícias de mulheres que morreram ao ter os pulmões perfurados por barbatanas...coisas que não possuem fontes ou evidência médica. São praticamente histórias de terror feitas para assustar jovens moças. Em praticamente todos os períodos da história da moda algum aspecto dela é ridicularizado por jornalistas e conservadores.

Afinal, as mulheres vitorianas realmente tinham 40cm de cintura?

O mito de que mulheres vitorianas tinham 40cm de cintura está bem longe de ser verdade. A maioria das mulheres tinha cerca de 60cm. Os menores corsets em museus tem entre 50 e 55cm de circunferência na cintura, mas a maioria deles tem entre 50 e 66 cm. Entre as roupas expostas, o mais comum são vestidos que medem 56cm e 66cm na cintura. Em tabelas de medidas de livros de costura do final do século XIX também podemos observar que essas medidas se mantém. A título de curiosidade, modelos como a Giselle Bundchen e Adriana Lima tem entre 58-60cm de cintura.

Tabela de medidas padrão (em polegadas) da Butterick Patterns. 1905

Além disso, os corsets eram usados aberto atrás e não completamente fechados, o que significa que a cintura natural da mulher era alguns centímetros (entre 5-8cm) maior do que a medida que vemos nos corsets que estão expostos em museus. Esses corsets que se preservaram são justamentes os que tiveram pouco uso por serem usados em ocasiões especiais, ou seja: é bem provável que para ir a uma festa uma mulher apertasse mais o seu corset para ter uma cintura mais fina, o que não caracteriza o tight-lacing.

Corsets de 1890s

O surgimento da prática do tight-lacing:

“Apesar de a maioria das mulheres vitorianas vestirem espartilhos, elas geralmente não eram mais tight-lacers com cinturas de 33 centímetros do que a maioria das mulheres de hoje  que usam sapatos fetichistas com saltos de 18 centímetros.”
Valeria Steele. Fetiche: moda, sexo e poder, p. 65

Tight lacing (ou laço apertado) se trata da prática de usar o corset constantemente apertado afim de moldar as costelas flutuantes e diminuir a cintura. A técnica surge na década de 1860, quando a cintura fina fazia parte do padrão de beleza. Durante a era vitoriana a tight lacing era praticado por uma minoria  de mulheres e inclusive era desencorajado por médicos e conservadores.

Mas e as fotos de mulheres vitorianas com cinturas minúsculas?

Polaire, um cartão de visitas e Addie Fargo

Procurando na internet encontramos fotos de mulheres no século XIX e início do XX com cinturas absurdamente finas. Muitas dessas cinturas são resultado de truques de ilusão de ótica com o volume das roupas (saias hiper volumosas, mangas bufantes, enchimento no busto e afins). Além disso mesmo nessa época já existia a edição e retoques de fotos, recurso também utilizado para afinar a cintura. O padrão de beleza da cintura fina de fato existia, mas era um ideal que boa parte das mulheres não conseguia atingir.

Fotos tiradas nas últimas décadas do século XIX

É comum que essas fotos que chamam a nossa atenção hoje sejam de mulheres de classe mais altas, nobreza, atrizes, dançarinas… pessoas que não representam a realidade da maioria da população da época. Traçando um paralelo com o presente, seria o mesmo que supor que todas as mulheres da década de 2010 tem o mesmo corpo da Kim Kardashian por conta das fotos dela no Instagram.

Finalizando:

Propaganda da Good Sense Corsets, de 1886

Mesmo ao final do século quando a cintura esteve fina como nunca vemos propagandas de ‘corsets saudáveis’, feitos com menos barbatanas (por vezes tinham cordão no lugar delas) e redução de medidas menores, ou ainda feito em tecidos leves e ventilados. Entre 1870 e 1890 também encontramos movimentos estéticos como o Natural Form e Aesthetic Dress que diferem da moda padrão da época, onde algumas mulheres inclusive dispensavam o uso de corsets.

Então em meados da revolução industrial  e próximo à I Guerra Mundial vemos mulheres cada vez mais inseridas no mercado de trabalho e buscando direitos iguais. Consequentemente essa postura se reflete na moda, e os vestidos tornam-se menos restritivos assim como o corset passa a ser deixado de lado. O corset caiu em desuso não por ser opressor e anti-feminista, mas porque o período exigia roupas cada vez mais práticas para as mulheres, foi algo que aconteceu de forma gradual.

Apesar de não ser a principal intenção o uso constante do corset modificou sim a silhueta da mulher ao longo dos séculos. O que não é uma exclusividade da peça já que o corpo humano - principalmente gordura - é altamente moldável (mesmo o uso de calças baixas podem deixar marcas definitivas, a famosa cintura dupla). Antes de nos chocarmos com medidas que hoje consideramos absurdas também é preciso levar em consideração que média de altura e peso da população mundial aumentou, o que consequentemente faz com que as pessoas do século XIX sejam menores, num geral.

É importante que ao estudarmos História da Moda prestemos atenção ao contexto histórico e evitemos sensacionalismos e boatos que partem do senso comum. Há muito o que investigar nessa área e é possível contar muita história interessante a partir de um único item de vestuário. Espero que além de informativo esse post tenha sido isso: interessante.

Referências:

Fetiche: Moda, sexo e poder, Valeria Steele
How to be a victorian, Ruth Goodman
The History of Underclothes, Cecil Cunnington

Outras leituras recomendas: 

4 comentários:

  1. Nossa..
    Amei seu post..achei ele bastante explicativo quanto ao uso dos corsets.
    Eu já tinha visto algo acerca das versões mais leves e infantis, ma para mim a questão das cinturas minúsculas é novidade..eu acreditava que era algo comum..não tanto, mas comum...
    Foi muito bom encontrar seu blog e com certeza vou dar um "passeio" pelo seu arquivo de post para ler um pouco mais sobre moda histórica!
    Beijos!

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    1. Obrigada! Pois é, realmente fica no nosso imaginário essa coisa da cintura minuscula...

      Espero que aproveite bem os posts :3

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  2. Que post incrível! Adorei! É bastante esclarecedor e derruba muitos mitos sobre o uso dos espartilhos. x3
    Estou impressionada com essas peças de museu, os detalhes e cores são lindos! =o
    Ah, sobre a cintura fina das moças, vale dizer que as mulheres da era vitoriana tinham uma estatura bem menor que modelos contemporâneas como a Gisele. Uma mulher magra de 1,50m (ou menos!) ter uma cintura de 62cm não seria um exagero, acredito. xD
    Sobre a questão de terem parado de usar espartilhos, acho que além da questão da praticidade, também diria que com as guerras e crises econômicas que marcaram a primeira metade do século 20, certos tipos de roupas passaram a ser vistos como gastos desnecessários de recursos e trabalho. Acho que dá pra ver a moda desse intervalo de tempo se tornando cada vez mais utilitária e militarizada, até os anos 1940 (e acho que dá pra fazer uma comparação entre moda e a economia do período!).

    "Era uma roupa de baixo básica e usada por mulheres de praticamente todas as classes sociais, com variações na sua confecção, qualidade de materiais e a frequência em que essa peça era usada e substituída" -> Algo que sempre tive dúvida é quantos espartilhos uma mulher comum costumava ter. Tentei extrapolar aqui, mas não faço ideia com que frequência trocavam uma peça usada por uma limpa (semanalmente? então uns 2-3 espartilhos diários pra revezar?)

    Obrigada por esse artigo, foi uma leitura excelente e provocadora de pensamentos! =D

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    1. Aaaah que comentário maravilhoso! Nem sei o que responder, rs. Mas super complementou o post, obrigada :3

      Hummm aí está uma boa pergunta! Porque sei que tinha espartilho pra várias ocasiões, mas agora o do dia a dia não sei se havia revezamento. Fiquei intrigada,rs.

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