terça-feira, 4 de outubro de 2016

Faça boa arte (Neil Gaiman)

"O marido fugiu com uma política(o)? Faça boa arte. Perna esmagada e depois devorada por uma jibóia mutante? Faça boa arte. IR te rastreando? Faça boa arte. Gato explodiu? Faça boa arte. Alguém na internet pensa que o que você faz é estúpido ou mau ou já foi feito antes? Faça boa arte. Provavelmente as coisas se resolverão de algum modo, e eventualmente o tempo levará a dor mais aguda, mas isso não importa. Faça apenas o que você faz de melhor. Faça boa arte."


"Se você está cometendo erros significa que você está por aí fazendo alguma coisa"

    Em 2012 Neil Gaiman deu um discurso em uma universidade de arte dos EUA. Posteriormente a transcrição desse discurso foi transformada em livro e publicada. O discurso motivacional é dirigido a futuros escritores, músicos, fotógrafos, dançarinos, freelancers, designers...enfim, para qualquer pessoa que deseja criar algo e viver disso. Fazer arte.

    Gaiman inicia dizendo que não  passou pela universidade, que sequer tinha um plano de carreira. Mas que resolveu contar aos estudantes tudo o que gostaria que tivessem contado pra ele no início, dar bons conselhos que ele próprio recebeu.

    O livro é incrível! Achei verdadeiramente inspirador e me fez pensar em muitas coisas, já que enquanto lia conseguia relacionar o que ele dizia com coisas do meu cotidiano e situações que observei pessoas que conheço ou admiro passando. Então vou aproveitar o espaço para compartilhar também algumas reflexões minhas enquanto apresento os assuntos que foram abordados dentro dos 6 conselhos (ou capítulos) do livro. 

01. Quando você começa em uma carreira nas artes você não tem ideia do que está fazendo.

    Não é necessário se apegar a regras e manuais, pelo contrário. Muitas vezes essas regras apenas impõem limites que seriam facilmente ultrapassados se você simplesmente não soubesse que eles existiam.

02. Se você tem uma ideia do que você quer fazer, sobre o que você foi colocado aqui para fazer, então simplesmente vá e faça aquilo.

    Gaiman exemplifica dizendo que começar como jornalista foi o caminho que ele encontrou para se tornar um escritor, que era seu grande sonho. Esses caminhos nem sempre estão claros, e talvez você não saiba se está fazendo a coisa certa. Mas o importante é ter uma meta, saber onde você quer estar, e cuidar para saber se o que você está fazendo no momento está te levando em direção aos seus objetivos ou não.

03. Quando você começa, você precisa lidar com os problemas do fracasso.

    Nem tudo que você faz vai dar certo. E estar preparado pra isso é necessário, porque assim você evita a ansiedade, desespero e desencorajamento que o fracasso pode trazer. Muitos artistas que hoje são considerados bem sucedidos tiveram muitas dificuldades no início da carreira (a própria J. K. Rowling foi rejeitada por diversas editoras até conseguir publicar Harry Potter). 

    Também é importante não aceitar um trabalho apenas pelo dinheiro "Se você não ganha o dinheiro, então você não tem nada". Curtir o trabalho em si e tirar algum ensinamento dele torna-o mais valioso que o valor que você vai receber em dinheiro. 

    Existem ainda os problemas do sucesso, que envolvem principalmente em não aproveitá-los direito porque você está preocupado demais com o processo e pressões externas pra apreciar o resultado.

04. Eu espero que vocês cometam erros. Se vocês estão cometendo erros, significa que vocês estão por aí fazendo algo.

    Esses erros inclusive podem dar ideias para coisas novas, resultar em algo produtivo. Fazer arte acaba sendo uma válvula de escape para momentos da vida que não estão sendo bons. Então quando tudo estiver dando errado, faça boa arte.

"Então escreva, desenha, construa, toque, dance e viva como apenas você pode fazer."

05. Enquanto estiverem nisso, façam a sua arte. Façam as coisas que só vocês podem fazer.

    Mesmo que no início o que você faz é apenas uma mistura de tudo o que você já viu e guardou como referência, você logo vai descobrir a sua própria voz, se continuar praticando. Treine e experimente até criar aquilo que só você pode fazer. Até que você consiga colocar a sua alma em forma de arte. Você acaba aprendendo com as obras que dão certo tanto quanto aprende com aquelas que não funcionaram direito.

06. E por fim, o melhor conselho que Gaiman já recebeu.

    Ele veio do Stephen King, que no auge do sucesso de Sandman disse: "Isso é realmente ótimo. Você deveria apreciar isso". King falava sobre aproveitar a parte boa de tudo isso, de olhar ao redor e apreciar o fato de as pessoas estarem reconhecendo seu trabalho. Não adianta apenas se preocupar com os próximos passos a serem dados se você não para pra pensar em onde está agora.

    O mundo está mudando, inclusive as formas de se trabalhar estão mudando. Vemos por aí profissões que não existiam 5 anos atrás, e também plataformas completamente novas pra compartilhar informações. As regras estão sempre mudando então é necessário que você crie suas próprias regras.

"E agora vão, e cometam erros interessantes, cometam erros maravilhosos, façam erros gloriosos e fantásticos. Quebrem regras. Façam do mundo um lugar mais interessante por vocês estarem aqui. Façam boa arte."

    O livro está disponível em diversas livrarias em ebook ou livro físico. Mas você também pode assistir ao discurso original no Youtube ou ler a transcrição dele aqui

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Traje de passeio 1890s

Inspiração:



     Estava assistindo Penny Dreadful nas últimas semanas e sou completamente apaixonada pelo guarda roupa da Vanessa Ives, confesso que fico desejando mil coisas! Então resolvi fazer algo inspirado nela pro Picnic Vitoriano desse ano. Mas também dei uma pesquisada na moda da década de 1890 pra ter mais algumas referências. A ideia era fazer algo bem vitoriano tardio, entre 1895-1900.

    No final das contas o modelo que eu desenhei foi esse, juntando referência da série e de peças históricas:



Underwear:



    Como a camisa é rendada, achei que uma chemise branca não ficaria bom então fiz outra em preto (baseada nesse modelo aqui).



    Também fiz drawers combinando, a partir do molde da combinação que também usei no meu traje 1880s.



    O corset é um underbust da Josette Blanchard que achei perfeito pra época por ter um estilo puxado mais pro Eduardiano (o que faz sentido em um traje do final da década) e uma curva de cintura mais dramática. No dia do evento acabei esquecendo de usar uma anágua, que seria o ideal.

Traje:



    A saia que eu usei é a mesma do meu traje 1880. A camisa é uma shirtwaist feita em algodão com detalhes em renda  e o modelo eu escolhi a partir de uma peça de museu.




    A construção do casaco (feito em microgabardine e com detalhes em plush) é simples, com uma modelagem atual. Só coloquei forro (em brim) em parte da peça, onde também usei barbatanas. Pra manter a parte de trás da gola em pé usei um material emborrachado que não sei o nome correto. O casaco é fechado por colchetes.



    Só depois que o casaco ficou pronto que decidi acrescentar os detalhes em soutache e os alamares porque achei que a peça precisava de algum enfeite. Procurei mais referências de design e fiz alguns testes e no final das contas me decidi por algo mais discreto mesmo.

Acessórios e cabelo:

Foto por Cleusa Vargas

    Estou com o cabelo mais curto que o de costume então tive que reaprender a fazer penteados, rs. Dessa vez ele só está preso pra cima de uma forma simples. Utilizei camafeus, e como eu queria reforçar esse ar mais 'sombrio' do traje um anel de cobra. Pode parecer estranho mas pelo que eu pesquisei existiam jóias vitorianas com cobras e serpentes.

Resultado final:


Fotos por Cleusa Vargas


    Fiquei bem satisfeita! O único detalhe que me incomodou foi essa enrugada que o casaco dá na região da cintura, o que acredito que aconteceu por ele não ser inteiramente forrado. A vantagem de se utilizar uma modelagem que está acostumada é conseguir acertar o caimento sem precisar fazer mock-ups, o que é prático. O casaco é definitivamente uma das peças do meu guarda-roupa histórico que mais gostei até agora, e junto com a camisa são peças que ainda pretendo testar outras combinações.

Principais referências:

The cut of women's clothes, Norah Waugh
Hecklinger's Ladies' Garment 
https://br.pinterest.com/pin/523684262895893973/
https://br.pinterest.com/pin/523684262890140517/
https://www.youtube.com/watch?v=q_krSA1K98o

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Recriação histórica: Bloomingdale's illustrated 1886 catalog



Bloomingdale era uma loja de departamentos popular em Nova York, fundada em 1872. Entre seus departamentos estava roupas (femininas, masculinas e infantis), leques, capas,penas e flores, luvas, chapéis, cabelo, malha, couro, rendas, joalheria, aviamentos,sapatos, prataria, fumo, brinquedos, roupas de baixo...a loja possuía uma infinidade de itens, que incluíam inclusive armas e livros.



O catálogo de 1886 possui aproximadamente 1,700 itens. Em 176 páginas ilustradas. Poucos catálogos sobreviveram até os dias atuais porque eram intensamente manuseados, geralmente por mais de uma pessoa, sendo que parte delas tinha o costume de arrancar páginas e recortar algumas ilustrações para guardar.




Quem costumava comprar na Bloomingdale eram principalmente donas de casas que gostavam de coisas bonitas, já que os produtos da loja eram considerados na moda e possuíam um preço baixo. As mais fashionistas ainda preferiam encomendar suas roupas com costureiros.


Para encomendar, a cliente deveria enviar, suas medidas  junto da descrição dos itens desejados, para que as roupas servissem bem. Era possível também mudar detalhes de cores, aviamentos ou até mesmo enviar um design novo para que pudesse ser confeccionado. Para encomendar tecidos, aviamentos ou apliques de cabelo na cor desejada o cliente poderia enviar amostras pelo correio, junto de seu pedido.

Pra quem se interessa por revivalismo ou recriação histórica o catálogo é um prato cheio para pesquisa. É possível ver o que estava na moda durante esse ano em várias áreas, e com as ilustrações perceber bem os estilos. Além do fato de cada uma das peças conter uma descrição dos materiais utilizados. Na parte de aviamentos e acessórios, o catálogo serve como uma fonte de comparação com itens encontrados atualmente.

Alguns itens que me chamaram a atenção:


Preços:

A Bloomingdale se orgulhava de possuir os menores preços , o que era repetido diversas vezes ao longo do catálogo.

Vestidos: os preços começam em  $5 os conjuntos para serem usado no dia a dia e vão até $50  em um vestido de noivas.
Saias: de 60c a $2
Chemises: 45c a $1,5
Corsets: 50c para modelos mais simples a $3,25, nos modelos com rendas, bordados e afins
Drawers: 28c a $1,6
Anáguas: $1,2 a $2
Sapatos: $2 os sapatos baixos, para caminhada até  $10 nas botas

No site Measuring Worth é possível convertes os preços para valores atuais. Segundo a pagina, $1 de 1886 atualmente valeria $26. Ou seja, um vestido de 15 dólares cerca de  $390 atualmente. E um corset de 1,5 dólares custaria $39.

Catálogos semelhantes:

Pesquisando um pouco mais acabei encontrando outros catálogos, que estão disponíveis para download ou visualização online.

Catálogo de moldes da Butterick, 1871: https://archive.org/details/catalogueofebutt00butt
Catálogo da Bloomingdale de 1890: https://archive.org/details/illustratedfashi00bloo
Catálogo da Jordan, Mash de 1895-96: https://archive.org/details/fallwinter18956p00jord

Referências:

https://www.measuringworth.com/uscompare/relativevalue.php
Bloomingdale’s illystrated 1886 catalog, por Bloomingdale Brothers. Dover Publication, 1988

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Sobre



     Apesar de sempre ter admirado coisas antigas, eu só comecei a pesquisar sobre história da moda em 2011, porque alguns períodos (como a Era Vitoriana e Rococó) influenciavam o design de peças da Moda Lolita, que eu estava começando a usar na época. Século XVIII e XIX continuam sendo meus preferidos em relação à moda e cultura. 

    Comecei a fazer meus trajes históricos em  2012, quando comecei a frequentar os eventos do Picnic Vitoriano de São Paulo. Conforme eu pesquisava para confeccionar minhas peças, dei de cara com vários blogs incríveis, e achei que manter um seria uma boa forma de compartilhar e registrar minhas pesquisas, além de ter um espaço pra manter uma espécie de portfólio. 

    Atualmente tenho 21 anos, moro em São Paulo e estudo Negócios da Moda. Entre meus hobbies estão praticar algum artesanato, passeios culturais, assistir séries e filmes, ler, pesquisar a história social da moda e, como talvez dê pra perceber, passar horas na internet conversando, rindo de memes e conhecendo coisas novas. Como sou bibliófila e amo escrever, manter blogs acaba sendo inevitável.


    As Peripécias de JL surgiu da minha necessidade de ter um espaço pra falar sobre meus projetos relacionados à história da moda, que não se encaixavam onde eu escrevia na época, o Minha Estrada de Pérolas

    O nome é As Peripécias de JL porque nem sempre as coisas que eu faço são planejadas e muitas vezes ocorrem imprevistos e mudanças, então estou sempre em alguma peripécia, rs. O JL refere-se tanto a Ju Lee (apelido que eu costumava usar na internet) como Juliana Lopes. A intenção aqui é compartilhar minhas pesquisas, referências, fotos dos meus projetos finalizados, e indicar filmes, livros e afins (de preferência com alguma análise sobre eles), não só sobre história da moda e minhas costuras mas sobre o que eu gosto no geral. Espero que gostem e sintam-se livres pra comentar, compartilhar, me contactar etc.  

     Eu ainda posso ser encontrada nas seguintes redes sociais:


    E estou disponível a responder emails no juliana_lopes_dn@yahoo.com.br.

domingo, 15 de maio de 2016

Maria Antonieta (1780s)

    Traje da década de 1780 composto de saia e jaqueta feitos em brim. Como roupa de baixo stays, chemise, meias, jarreteiras e bumpad. Todas as peças foram confeccionadas por mim (exceto as meias, rs).

Principal inspiração: figurino do filme Maria Antonieta (2006)

Posts relacionados: 

1780's stays -  processo de costura
Chemise -  tutorial e processo de costura
Jarreteiras -  processo de costura e pesquisa
1780's bumpad -  processo de costura
Traje Marie Antoinette (1780's) - sobre a construção do traje

Fotos por Valdeir Netto:






Fotos feitas por mim/selfies:




Foto por Mara Sop:




Foto por Cleusa Vargas:


    Caso pretenda postar as fotos em algum outro lugar por favor me avise e mantenha o crédito dos fotógrafos.

Traje Marie Antoinette (1780s)

Inspiração:



    Minha principal inspiração foi esse figurino do filme Maria Antonieta (2006). Eu tinha metros e metros de brim branco aqui em casa que não sabia como usar e esse traje pareceu ser uma boa saída. 


Underwear:


    Como rococó é uma época que eu ainda não tinha experimentado, tive que fazer todas as peças de baixo, para construir a base do traje. Nesse caso, utilizei stays, chemise, meias, jarreteiras, bolsos e bumpad. Escrevi um post detalhado sobre a pesquisa e construção dos stays, da chemise, das jarreteiras e do bumpad, clicando nos links você pode ver o post sobre cada um deles. As meias eram 5/8 e de fio 20, brancas. Os bolsos eu fiz a partir de um molde do V&A Museum, usando o mesmo tecido dos stays.



Jaqueta e saia:



    A saia é pregueada e construída como na época. São dois painéis e cada um deles é amarrado na cintura por fitas. Não fotografei o processo porque foi bem rápido de fazer, rs. O modelo dessa jaqueta se chama pierrot jacket, e eu fiz o molde a partir de um que tem no História do Vestuário, modificando algumas partes. Fiz primeiro um mock-up pra ver como a parte das pregas ficaria. A parte do corpo tem forro e barbatanas e na frente coloquei zíper. Não é historicamente correto, mas é prático, rs. 


Acessórios e cabelo:



    O chapéu eu fiz a partir de um chapéu desses de festa junina, que eu diminuí a copa e acrescentei um acabamento em viés e os detalhes de chiffon e flores falsas. Os babados da manga também foram feitos em chiffon e colocados à parte. No pescoço resolvi usar uma fita com pingente  e também acrescentei brincos porque senti falta de algo do tipo. Como meu cabelo estava comprido, seria impossível reproduzir o penteado do filme, então optei por coque + cacho, que também era usado na época. 


Resultado final:



    Eu particularmente não gosto de como esse traje ficou em mim. E não sei se gosto do resultado final como um todo. Como terminei ele apenas um dia antes da data que eu teria que usá-lo, acabei não fazendo muitas provas ou tendo tempo de ajustar bem ao corpo. A jaqueta está um pouco curta (uns 2 dedos acima da linha da cintura) e a saia ficou comprida demais, rs. Também não sei se brim foi a melhor escolha, porque acabou tirando um pouco da delicadeza que o traje deveria ter. Enfim, fiquei satisfeita com a construção e numa próxima pretendo melhorar esses aspectos que me desagradaram. 


Principais referências:

Saia:

http://koshka-the-cat.com/18c_petticoat.html
http://fashionablefrolick.blogspot.com.br/2011/04/threaded-bliss-tutorial.html

Jaqueta:

http://mantuadiary.blogspot.com.br/2011/06/striped-caraco-jacket.html
http://americanduchess.blogspot.com.br/2012/06/v178-1770s-polonaise-jacket-progress.html
http://americanduchess.blogspot.com.br/2012/05/v122-beginnings-of-polonaise-jacket.html
História do Vestuário, Carl Köhler (livro)

Outros:

http://thedreamstress.com/2013/03/tutorial-how-to-turn-a-straw-sunhat-into-an-18th-century-bergere/
http://costumersguide.com/ma28.shtml
The cut of women's clothes, Norah Waugh (livro)
https://br.pinterest.com/pin/523684262897085352/
http://www.vam.ac.uk/content/articles/m/make-your-own-pocket/

sábado, 2 de abril de 2016

Uma breve história da lingerie

    Resolvi falar sobre a história da roupa de baixo feminina porque acredito que a internet carece desse tipo de material, ainda mais em português. A intenção desse post é apresentar uma linha do tempo das peças que faziam suporte à silhueta de diversos períodos, apresentando as principais peças utilizadas por baixo dos trajes que vemos hoje em pinturas e museus. 

Origem

   Lingerie é uma palavra que vem do francês e define peças feitas em linge (tecido feito a partir de linho, algodão, nailon e afins, que geralmente são usados nas roupas de baixo). As roupas de baixo costumavam ser brancas para demonstrar limpeza, e eram peças trocadas frequentemente ao contrário dos vestidos que eram usados diversas vezes antes de serem lavados. Sua função era proteger o corpo do frio, criar um suporte para a silhueta desejada, auxiliar na limpeza, distinguir classes e também podia ter apelo erótico. 


Antiguidade


    Os primeiros registros de mulheres usando peças para cobrir especificamente os seios e regiões íntimas datam dos séculos III e IV a.C, na Sicília ; tratava-se uma espécie de banda de tecido nos seios usada junto de uma tanga.


Era Medieval



    Na era medieval a função da roupa de baixo era puramente utilitária. Por baixo dos vestidos as mulheres usavam longas camisolas de linho, chamadas de smock. Mais ao final do período essas peças passam a ter decoração como pregas e bordados, e uma modelagem mais ajustada ao corpo.

Renascimento/Era Tudor




    É no século XVI, com o renascimento as mudanças na moda que as roupas de baixo também ficam mais elaboradas. Além da smock (chamada de chemise pelos normandos e também de shift), que agora poderia ter a gola aparecendo por fora do vestido, foi introduzida no armário feminino o pair of bodies, que era uma espécie de corpete estruturado com barbatanas e fechada por meio de ilhós e cordões. Para manter a saia no formato cônico, o farthingale (peça semelhante à crinolina, porém com os aros presos a uma estrutura de tecido) tornou-se necessário, e junto dele também usava-se o bum roll (almofadas usadas ao redor do quadril).


Barroco



    Durante o período dos Stuarts (Inglaterra entre 1603 e 1714), as roupas de baixo femininas adquirem um caráter mais sensual, em contraste ao puritanismo vigente. A chemise era perfumada e novamente poderia ser vista por fora do vestido, assim como vislumbres da anágua. O pair of bodies continua sendo usado, agora mais enfeitados e com abas na parte de baixo. As anáguas mudaram de formato e o farthingale começou a ser abandonado. Drawers (calçolas) eram usadas por algumas francesas e o colete em épocas mais frias.

Rococó/ Era Georgiana:



    A chemise no rococó ia até os joelhos, com mangas até a altura do cotovelo. Podiam ser simples e justas ou amplas e com babados, e no início do século XVIII elas ainda podiam ser vistas em algumas partes do vestido. O pair of bodies evoluiu para o stays, que passaram a ser mais enfeitados e havia uma opção mais confortável e feita em tecido acolchoado: os jumps. Nas pernas (que tinham grande apelo sexual), as mulheres usavam meias acima do joelho e para prendê-las usavam jarreteiras. As anáguas eram enfeitadas para serem usadas com vestidos abertos, e as inglesas do final do período usavam anáguas acolchoadas por baixo de seus trajes. Para manter essa silhueta com volume nas laterias utilizava-se panniers ('cestas') ou bum pads (outro tipo de almofada para ser usada no quadril). Os bolsos faziam parte da roupa de baixo como uma peça a parte do vestido.

    Sobre stays eu já escrevi um post, que pode ser lido aqui, e sobre a chemise tem tutorial aqui. As Jarreteiras também foram comentadas aqui e os bolsos aqui.

Diretório



    Após a revolução francesa em 1789 a moda sofreu mudanças drásticas e, consequentemente, a roupa de baixo também mudou. Roupas demasiadamente volumosas e restritivas como as que eram usadas na corte foram abandonas, e consequentemente os stays e panniers também. O que surge são versões mais curtas dos stays, o short stays, e bum pads que continuam sendo utilizadas em alguns trajes. Após esse período de conflito roupas de baixo deixam de ser consideradas uma ferramenta de sedução e passam a ser vistas como algo supérfluo. O uso de drawers começou a ser popularizado por influência da Princesa Charlotte

Império/ Regência


    No início do século XIX, as roupas de baixo continuam sendo leves, sendo que muitas das peças eram dispensadas pelas mulheres. O stays voltam a ser longos porém estruturados com barbantes ao invés de barbatanas de baleia ou madeira. E sua função principal era elevar os seios já que o decote era valorizado na moda. As drawers podiam ter as pernas separadas (esse modelo era chamado de pantalettes) e não eram utilizado por todas. As chemises passaram a ser longas e sem mangas, geralmente sem muito detalhes. Camisas curtas e com golas enfeitadas (chemisettes) eram usadas por baixo do vestido na década de 1820 principalmente. E no início da década de 1830, algumas mangas eram tão volumosas que precisavam de suporte para manter seu formato.


Vitoriano inicial



    A Era Vitoriana se inicia em 1837, na Inglaterra. Novamente, conforme a silhueta muda na moda, as roupas de baixo precisam ser adaptadas. Nessa época as saias passam a novamente ser volumosas, realçando a cintura e necessitando de suportes como várias anáguas (acolchoadas, com babados, de cordão etc), até o surgimento da crinolina em 1851, mesmo ano em que surgiu a abertura por busk nos corsets, que passam a ter uma modelagem mais complexa, afinando um pouco mais a cintura* e realçando os seios. Nessa época também surgem peças como corset cover (para evitar que o corset marque sob a roupa) e ao invés de apenas uma chemise longa, a maioria das mulheres usa uma versão mais curta combinada com drawers, que tornam-se necessários a medida que por causa da crinolina as pernas podem fciar expostas de acordo com os movimentos que a mulher faz ao caminhar.

    Já fiz um tutorial de anágua de cordão aqui.


Vitoriano Tardio



    A partir de 1870 as saias passam a ser menos volumosas, concentrando seu volume na parte de trás. Essa mudança na silhueta exige que uma nova peça seja introduzida no guarda-roupa feminino: o bustle. Almofadas (agora bustle pads) continuam sendo uma alternativa mais confortável e acessível para dar o suporte necessário a saia. Corsets, corset covers (também chamadas de camisoles), e anáguas lisas ou com babados continuam sendo utilizadas, porém como alternativa à chemise e drawers surge a combinação, que é uma espécie de macacão sem mangas e na altura do tornozelo, com abertura no meio das pernas.

    É só no início do século XX que as roupas de baixo passam a mudar drasticamente e se parecer com que utilizamos hoje. Eu posso entrar em detalhes em algum período específico caso algum desses tenha ficado vago demais, e provavelmente escreverei outro post focando no século XX, que deixei de fora aqui para evitar um post excessivamente longo.

    * O uso de corsets na era vitoriana estava mais associado à questão de suporte e silhueta, com uma redução moderada da cintura. O objetivo da maioria das mulheres não era somente afinar a cintura como no tight  lacing.

    Ps.: A divisão de períodos foi feita de acordo com mudanças na Moda, e não na divisão clássica do estudo da História ou Arte.

Referências:

História do vestuário no Ocidente, Fraçois Boucher (livro)
Late 18th Century Skirt Supports: Bums, Rumps, & Culs
Lingerie Histórica, parte 1: farthingale e guardainfante 
Reflexões sobre a moda, vol. II, João Braga (livro)
The History of underclothes, C. Willett Cunnington (livro)
Uma breve história do espartilho, seus mitos e controvérsias

As imagens foram tiradas de diversos lugares, caso queria saber a fonte de uma em específico é só dizer. Priorizei artes da época e peças de museu para ilustrar os períodos.